O custo de produzir no Brasil
- comunicacaoapolina
- há 10 horas
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No Brasil, produzir não é apenas caro. É uma armadilha. E a nova reforma tributária não resolve — apenas reorganiza o peso.
Por Claudio Apolinario

Uma empresa no Brasil gasta, em média, 1.501 horas por ano apenas para calcular, declarar e pagar impostos. Isso não é trabalho produtivo. Não é geração de emprego. Não é inovação. É burocracia pura — tempo e dinheiro consumidos antes de qualquer produto chegar ao mercado.
Para comparar: nos Estados Unidos, uma empresa gasta 175 horas por ano com impostos. Na Suíça, 63 horas. Na média dos países desenvolvidos, 159 horas. O Brasil gasta quase dez vezes mais — e é o primeiro colocado no ranking mundial nesse quesito, segundo o Banco Mundial.
Primeiro do mundo. No ranking errado.
Mas o problema não é só o tempo. É o que esse tempo representa: uma empresa pequena ou média no Brasil precisa de um funcionário quase em tempo integral só para cuidar de obrigações fiscais.
Esse custo da burocracia não aparece como qualidade melhor, não aparece como mais emprego, não aparece como inovação — aparece só como produto mais caro para o consumidor. E o preço mais alto significa menos competitividade, menos vendas, menos empregos.
Quem paga essa conta não é o empresário. É o consumidor.
E o sistema tem uma lógica perversa. Quanto mais uma empresa tenta crescer e se formalizar, mais ela paga. O Simples Nacional foi criado para proteger o pequeno. Mas quem ultrapassa os limites do Simples não encontra um degrau — encontra um abismo.
A carga quase dobra de um dia para o outro. O resultado é previsível: empresas que poderiam crescer preferem ficar pequenas ou caminhar na informalidade.
No Brasil, crescer tem um preço alto demais. O sistema pune.
Tem mais um detalhe que pouca gente fala. O Estado é o maior comprador do país. Para uma empresa que quer crescer de verdade, vender para o governo não é apenas uma opção — é muitas vezes a única que permite escala real. Mas entrar nesse jogo exige navegar por um labirinto de documentos, regras e, em muitos casos, conhecer as pessoas certas. Quem conhece o sistema sabe: a licitação nem sempre premia quem produz melhor. Premia quem joga melhor o jogo.
Agora, para completar o quadro, chegou a reforma tributária.
Aprovada em 2023 e regulamentada em 2025, a reforma foi vendida como simplificação. E em parte simplifica — substituir cinco tributos por dois é, na teoria, mais claro. Mas simplificar não é o mesmo que reduzir. E os dados mostram que para muitas empresas, especialmente as pequenas e médias, a reforma significa mais peso, não menos.
O novo imposto criado pode chegar a 28,55% sobre o que as empresas vendem. Se confirmado, o Brasil terá o maior imposto sobre vendas do mundo — superando a Hungria, que hoje lidera com 27%. Uma empresa que hoje paga 3,65% de imposto sobre o que vende passará a pagar 9,25%. Quase três vezes mais. Não tem para onde correr. O preço sobe — e quem paga é, de novo, o consumidor.
A reforma afetará 96% das empresas brasileiras. Não é projeção pessimista. É o que os próprios dados da reforma mostram.
O problema é simples de entender: o Estado brasileiro foi feito para arrecadar, não para produzir. Cada reforma que promete simplificar mantém a arrecadação. Ou aumenta.
Cada tentativa de formalizar o mercado cria novas obrigações para quem já estava formalizado. E cada empresa que decide empreender no Brasil descobre, cedo ou tarde, que seu maior sócio não assinou nenhum contrato com ela — mas tem direito a uma fatia garantida de tudo que ela produz.
Esse sócio se chama Estado. E ele nunca perde dinheiro.
O sinal mais claro de que algo está errado não vem de relatório. Vem da fronteira. Mais de 230 empresas brasileiras já produzem no Paraguai. São 25.000 empregos que poderiam estar aqui. O motivo é direto: no Brasil, impostos e encargos trabalhistas juntos podem chegar a 80% do custo de uma fábrica. No Paraguai, esse número é 12%.
O Paraguai cobra 10% de imposto sobre o lucro, 10% de imposto de renda e 10% de IVA — e nada mais. Não é que o Paraguai seja extraordinário. É que o Brasil se tornou caro demais para produzir.
Quem quer mudar isso tem uma responsabilidade: parar de votar em quem promete mais Estado como solução e explicar esse problema de forma clara para quem ainda não percebeu: o empresário que paga 80% de encargos; o autônomo que passa meses do ano trabalhando para o governo; o consumidor que paga mais caro porque a cadeia inteira foi tributada antes de chegar até ele.
Mais Estado é exatamente o que criou esse problema. A reforma que o Brasil precisa não começa em Brasília. Começa na decisão de quem vota, de quem se informa, de quem debate, de quem influencia, de quem reivindica, enfim, de quem paga essa conta.
Porque no Brasil, produzir não é apenas caro. É uma
armadilha.
| Claudio Apolinario é articulista e analista político.




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