O país que aprendeu a conviver com a corrupção
- comunicacaoapolina
- há 1 dia
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A corrupção no Brasil não é exceção. É sistema. E o maior problema não é quem rouba — é quem aceita.
Por Claudio Apolinario

Existe uma palavra que o brasileiro usa com carinho e que deveria causar desconforto. Jeitinho. Pior. Rotula como Jeitinho Brasileiro.
Junto com ele vem outro conceito igualmente perigoso: levar vantagem. Enquanto o jeitinho é o método — quebrar a regra quando ela incomoda — levar vantagem é o objetivo. E os dois juntos formam a base cultural da corrupção brasileira.
O jeitinho é apresentado como criatividade. Como esperteza. Como a capacidade única do brasileiro de resolver o que parece impossível. Mas há uma definição mais precisa — e mais honesta. O jeitinho é a decisão de quebrar uma regra quando ela incomoda. É a corrupção pequena que, praticada em escala, virou traço cultural.
E o que se normaliza no pequeno, cresce no grande.
Uma pesquisa da Escola de Direito da FGV apontou que 81% dos brasileiros admitem usar o jeitinho sempre que possível. 56% afirmam que há poucos motivos para obedecer a lei no Brasil. E 80% acreditam que é fácil desobedecer às leis sem consequência.
Pare um segundo nesse número. 81%. Esses não são dados sobre políticos. São dados sobre o cidadão comum.
A corrupção no Brasil não vive apenas em Brasília. Vive no fiscal que fecha o olho mediante pagamento de uma propina. No empresário que paga para ganhar contrato.
No profissional que emite nota fria. No motorista que oferece dinheiro ao guarda para escapar da multa. No cidadão que pede ao político para furar a fila do hospital.
Cada um desses atos parece pequeno. Isolado. Com uma boa desculpa. Mas juntos formam o ambiente moral em que o grande desvio prospera. Porque quem aceita o desvio pequeno e dá a desculpa do jeitinho fica sem credibilidade para se indignar com o desvio grande e chamá-lo de escândalo.
E a indignação existe — mas não produz consequência.
O dado piora. Para 90,1% dos brasileiros, políticos são raramente ou nunca punidos, segundo pesquisa Latam Pulse da Bloomberg de julho de 2025. É quase unanimidade. O país sabe que a impunidade existe. Sente que a impunidade existe. E ainda assim reelege quem tem ficha cheia de denúncias.
A polícia prende. A justiça solta. E o eleitor reelege.
Esse ciclo não se sustenta por acidente. Se sustenta porque parte do eleitorado aceita a troca — mesmo sem admitir. O candidato com ficha suja que "resolve" as coisas. O político investigado que "pelo menos faz obras". A corrupção tolerada quando beneficia o lado que a gente defende.
Isso tem nome. Não é jeitinho. É cumplicidade.
O Brasil em 2024 registrou 34 pontos no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional — a pior nota da série histórica. Em 2025, subiu um ponto. Continua na 107ª posição entre 180 países. Abaixo da média mundial. Abaixo de países que o Brasil costumava olhar de cima.
E o esquema do INSS descoberto em 2025 deixou claro que a corrupção não é privilégio do setor público. Noventa e uma entidades privadas participaram de um esquema que desviou R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas. A iniciativa privada não está acima do problema. Está dentro dele.
A corrupção brasileira é sistêmica porque é cultural. E é cultural porque começou a ser aceita muito antes de chegar ao noticiário — começou no jeitinho cotidiano que todo mundo pratica e ninguém chama pelo nome certo.
Mudar isso não depende de lei nova. Depende de uma decisão individual que parece pequena mas é enorme: parar de aceitar o jeitinho como virtude. Chamar o pequeno desvio pelo nome que ele tem. Recusar a lógica da troca quando ela aparece disfarçada de praticidade.
Corrupção não começa no alto escalão. Começa na decisão de cada um de relativizar o que é certo quando é conveniente.
E só termina quando essa decisão muda.
| Claudio Apolinario é articulista e analista político.




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