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A geração de homens mais desorientada que o Brasil já produziu

  • comunicacaoapolina
  • há 17 horas
  • 3 min de leitura

A desconstrução silenciosa que antecede a ausência


Por Claudio Apolinario


Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Entre 2013 e 2023, o Brasil registrou 144.566 mortes por suicídio. Setenta e nove por cento das vítimas eram homens. Não é estatística neutra — é o retrato mais cru de uma geração inteira que aprendeu a engolir a dor em silêncio, porque pedir socorro foi ensinado como fraqueza, e fraqueza foi ensinada como vergonha.


O problema não começa com o pai ausente. Começa com o homem que ainda está presente, mas que já não sabe o que significa ocupar esse lugar. A crise da masculinidade que esta geração vê nos números é consequência. A causa vem de uma desconstrução que aconteceu décadas antes, dentro das escolas, das universidades, das telas e das narrativas que formam consciência sem parecer que estão formando.


A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, publicada em 2024, revelou que dos 9 milhões de jovens brasileiros entre 14 e 29 anos que não concluíram o ensino médio, 58,1% são homens. No ensino superior, a distância aumenta: apenas 27,7% dos homens frequentam a sala de aula. Um país que perde seus homens na educação antes dos vinte anos não está diante de um problema de política pública. Está diante de um problema de identidade.


O que expulsa esses homens da escola? O IBGE identificou que 25,5% dos que abandonaram declararam "falta de interesse em estudar". Não é preguiça — é ausência de propósito e identidade. Um homem que não sabe o que é, não sabe para que serve o que aprende. E um homem sem propósito não persevera. Foge.


Isso não é obra do acaso. Por décadas, o projeto cultural dominante tratou a autoridade masculina como sinônimo de opressão, a liderança do pai como autoritarismo a ser desmantelado e a força como violência disfarçada. O resultado não foi a libertação prometida. Foi a geração de homens mais desorientada que o Brasil já produziu.


O resultado é um paradoxo cruel: o projeto cultural retirou do homem a identidade que o sustentava, mas deixou intacta a programação que o impede de pedir socorro. Ele perdeu o chão — mas foi treinado a fingir que ainda está de pé.

Não é apenas que os homens não buscam ajuda — é que foram treinados a não precisar dela. Pedir socorro exige expor uma vulnerabilidade e a vulnerabilidade foi ensinada como incompatível com o papel que a sociedade construiu do homem. Homens treinados a não precisar de nada morrem sozinhos.


Os dados do Ministério da Saúde confirmam o paradoxo: entre janeiro e novembro de 2023, apenas 33,4% de todos os atendimentos em saúde primária foram de homens. Para cada mulher que cuida da própria saúde, há um homem que espera "estragar" antes de ir ao médico. O silêncio masculino não é coragem — é a máscara que uma cultura mal construída colou no rosto deles ainda crianças.


Este argumento não é defesa do machismo, nem apologia à violência doméstica. Não é nostalgia de um patriarcado que também produziu seus danos. O que está em análise aqui é o movimento inverso: a substituição de um problema por outro. Trocou-se a autoridade mal exercida pela ausência de autoridade. E a ausência produziu órfãos — não de pais mortos, mas de referências vivas que abdicaram de existir.


Um homem ensinado sistematicamente a pedir desculpas por ser homem não desenvolve coragem. Desenvolve vergonha. E homens com vergonha não lideram famílias — fogem delas. O que o Brasil chama de abandono paterno é, em grande parte, a saída silenciosa de homens que nunca foram formados para ficar. Não porque sejam maus. Porque nunca lhes foi dito que ficar e cuidar era o ato mais importante que poderiam fazer.


A tendência é documentável e crescente. Em uma década, os dados de suicídio masculino aumentaram de forma contínua, com maior concentração entre jovens de 20 a 29 anos — exatamente a faixa que deveria estar construindo família, carreira e propósito. Isso não é coincidência. É o custo social de uma geração que foi desconstruída antes de ser formada.


A solução não está numa lei, numa política pública ou numa campanha sazonal de conscientização. Está na decisão de cada comunidade, cada família e cada homem rejeitar o roteiro da vergonha e reivindicar o lugar que a história exige. Caráter não é virtude decorativa — é a única fundação sobre a qual um homem pode ficar de pé quando tudo pressiona para que ele ceda ou desapareça.


O Brasil não precisa de homens que pedem desculpas por existir. Precisa de homens que decidem, todos os dias, que existir com propósito é a única forma de existência que vale a pena. Diante de uma geração desorientada é fundamental afirmar: a masculinidade tem uma essência — e essa essência não é o problema. É parte da solução.


| Claudio Apolinario é articulista e analista político.


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