O preço do populismo
- comunicacaoapolina
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Toda promessa fácil tem uma conta difícil. E quem paga é sempre o mesmo.
Por Claudio Apolinario

Todo governo populista começa da mesma forma.
Uma crise real. Um líder que diz ter a solução. Promessas de que o Estado vai resolver o que não foi resolvido. Assim que toma posse o governo começa a gastar mais. Cria benefícios. Controla preços. Subsidia combustível, energia, alimento. E nos primeiros meses, parece estar funcionando.
As pessoas sentem no bolso. A sensação é boa. O governo fica popular.
O problema não é o começo. É o que vem depois.
Pesquisadores que estudaram o histórico de países que seguiram esse caminho identificaram um padrão que se repete com uma regularidade quase chata. Primeiro, o governo gasta mais do que arrecada e a economia aquece. Segundo, a popularidade sobe e o governo se reelege. Terceiro, a conta começa a chegar. A inflação sobe. Os preços que o governo tentou segurar não aguentam mais. O déficit cresce. O governo responde com mais controle, mais subsídio, mais intervenção. Quarto, o colapso. O ajuste que não foi feito antes precisa ser feito agora, de forma mais dura, com mais custo para todo mundo.
E então o ciclo recomeça. O governo seguinte herda a bagunça, aplica o remédio amargo, perde a eleição. O populismo volta com a mesma promessa de que dessa vez vai ser diferente.
O mecanismo funciona por um motivo simples: a promessa chega antes da eleição. O custo chega depois. E quem colhe os benefícios nem sempre é quem paga a conta.
Quem paga é o trabalhador com salário comido pela inflação. O empresário que não consegue crédito porque o governo ocupou todo o espaço. O aposentado cujo benefício compra menos a cada mês. O jovem que entra num mercado de trabalho encolhido depois de anos de contas mal feitas.
O populismo não é generoso com os pobres. É generoso com quem está no poder. Que usa o dinheiro dos pobres para financiar a popularidade que garante a permanência no poder.
Quem acompanha a história da América Latina conhece esse filme. A Argentina entrou em colapso econômico várias vezes seguindo essa lógica. A Venezuela destruiu uma das economias mais ricas do continente em menos de vinte anos. O Brasil tem seu próprio registro, com períodos de gasto acima do que podia e ajustes posteriores que apagaram os ganhos e deixaram a dívida maior do que antes.
Em todas essas situações, o roteiro foi o mesmo. O governo que gastou além da conta culpou o mercado, os bancos, a oposição e o cenário internacional. Nunca assumiu que o problema era a conta que não fechava desde o começo.
Já vi isso de perto. Propostas que prometiam muito sem dizer de onde viria o dinheiro eram aplaudidas. Propostas que explicavam o custo real eram ignoradas. A plateia preferia ouvir a parte boa. E o político que dizia a verdade tinha mais chance de perder do que de ganhar.
Isso não é fatalidade. É escolha.
A saída começa pela pergunta que raramente é feita antes do voto: quem vai pagar essa conta? Toda promessa de benefício sem fonte de financiamento clara é uma promessa que alguém vai pagar depois. E esse alguém é sempre o contribuinte, que financia o Estado que prometeu mais do que podia entregar.
O populismo sobrevive porque o eleitor permite. Quando a maioria das pessoas passar a exigir resposta para "de onde vem o dinheiro?" antes de aplaudir qualquer promessa, o cálculo político muda.
Enquanto isso não acontecer, a conta vai continuar chegando na hora menos conveniente.
Quem já entende esse mecanismo tem uma responsabilidade que vai além do próprio voto. É explicar para quem ainda não entendeu. É ser a pessoa que faz a pergunta certa na hora certa. É quem se dispõe a influenciar.
Populismo sobrevive no silêncio de quem sabe e não fala.
E quem paga a conta, como sempre, não é quem prometeu.
| Claudio Apolinario é articulista e analista político.




Comentários