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Não é sobre soberania. É sobre limite moral.

  • Foto do escritor: Claudio Apolinario
    Claudio Apolinario
  • 6 de jan.
  • 3 min de leitura

Quando a defesa ideológica do Estado serve para encobrir a tragédia humana, demonstra que o problema não é estético — é ético.

Por Claudio Apolinario


Foto: Eneas (Flickr), CC BY 2.0 — Wikimedia Commons
Foto: Eneas (Flickr), CC BY 2.0 — Wikimedia Commons

A notícia de que Nicolás Maduro foi preso pelos Estados Unidos reacendeu um debate conhecido - e quase sempre mal formulado. De um lado, a indignação ideológica, supostamente em nome da soberania de um país. De outro, a comemoração aliviada da intervenção externa.


Entre essa dicotomia, perde-se o essencial: a realidade de um povo esmagado por um Estado que deixou de protegê-lo.


Não se trata de celebrar a intervenção externa. Trata-se de reconhecer que o Estado deveria ter protegido seu povo para que isso jamais fosse necessário. O que se impôs foi uma opressão prolongada, sem qualquer possibilidade interna de reação, caminhando para um desfecho trágico. 


Quando as instituições falham de forma sistemática, fica claro que a política deixou de oferecer saídas. - E a história cobra seu preço.


Alguns têm a ousadia - ou a hipocrisia - de chamar o episódio de "precedente perigoso". A expressão pode até parecer coerente num primeiro momento, mas costuma esconder outra coisa: relativismo proposital, moral e ideológico. Confunde-se cautela com conveniência.


O verdadeiro perigo é tratar como detalhe diplomático uma tragédia institucional que, há muito tempo, se converteu em tragédia humana. O que assusta não é o fato em si, mas o precedente de tolerar a barbárie enquanto se protege um conceito "bonito".


O fato é que não havia reação interna possível. O Estado opressor desmontou, um a um, todos os mecanismos de resistência, subjulgando não apenas um povo, mas uma nação inteira. Quando um regime elimina eleições, sufoca a imprensa, instrumentaliza o Judiciário e criminaliza a oposição, o problema deixa de ser político. Torna-se tragédia.


Nesse contexto, o discurso inflamado sobre soberania revela mais sobre a moral de quem o faz do que sobre o fato em si. O atual mandatário do nosso país e expoentes da esquerda criticaram a ação dos Estados Unidos por supostamente desrespeitarem a soberania de outro país.


Mas foi esse mesmo mandatário que utilizou avião da FAB para resgatar a ex-primeira-dama peruana condenada por corrupção. Foi o mesmo que pediu a libertação de Cristina Kirchner, também condenada em seu país pelo mesmo crime.


Não se trata de comparar casos, mas de reconhecer um padrão - a hipocrisia de quem se apresenta como "defensor da soberania", mas age por interesses ideológicos e fisiológicos.


Quando o Estado deixa de proteger direitos para proteger aliados, perde legitimidade moral. Não pode mais exigir respeito automático em nome de uma soberania abstrata. Esse Estado não merece blindagem diplomática nem silêncio cúmplice.


A democracia não cai com um estrondo que brota do nada; cai com concessões silenciosas feitas em nome de "boas intenções".


Os que arriscam falar em "precedente perigoso" precisam responder: perigoso para quem? Para a ditadura que vê ruir sua tirania? Ou para os amigos da ditadura?


A pergunta inevitável é outra: onde estavam os que preferiram o conforto ideológico do Foro de São Paulo à defesa concreta de direitos humanos? Onde estavam os defensores do "tal direito" enquanto um povo inteiro era esmagado por um tirano?


A resposta costuma ser desconfortável: calados, porque a ideologia e os objetivos de perpetuação no poder falaram mais alto.


O que está em discussão não é se foi a melhor solução - porque não foi. O caminho legítimo teria sido a soberania popular exercida em eleições livres. Mas essa possibilidade havia sido anulada muito antes, quando todas as alternativas foram sistematicamente destruídas pelos próprios tiranos.


Não é a intervenção externa que normaliza o abuso; é a omissão prolongada que a torna inevitável.


Convém ainda um alerta. O desconforto dos que vociferam contra a prisão do ditador não nasce do que já se sabe, mas do que ainda pode ser revelado. Cumplicidades, financiamentos e silêncios estratégicos raramente resistem quando o verniz diplomático cai.


Não é o fato isolado que os inquieta - é o que ele autoriza amanhã, a partir da exposição dos conluios dos aprendizes de tiranos da região.


Nada disso transforma os Estados Unidos em árbitro moral do mundo, nem cria um manual para intervenções futuras. Apenas escancara o vazio deixado por instituições e líderes que falharam em seu papel mais básico: defender o povo.


Quando se idolatra o Estado e se usa seu poder para oprimir, o tempo cobra seu preço. Preço que costuma ser pago, inicialmente, pela dor dos mais frágeis.


Portanto, convém recolocar a discussão no seu devido lugar. Isso não é sobre soberania. É sobre limite moral.


Quando o Estado vira ídolo, toda barbárie encontra desculpa.

*Claudio Apolinario é articulista e analista político.

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