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Como a narrativa se torna realidade

  • comunicacaoapolina
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Quem decide o que é escândalo?


Por Claudio Apolinario


Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A cada 100 pessoas que se informam pelos 4 principais canais de TV, 61 acessam a mesma emissora. Segundo o Kantar IBOPE, a líder da TV aberta registra sozinha mais audiência do que as três seguintes somadas. Num país de mais de 200 milhões de pessoas, um único grupo fala para a maioria do país. Um único grupo decide o que a maioria vê.


Quando uma única voz fala para a maioria, ela não informa. Ela decide.


Isso não é denúncia ideológica. É dado de mercado. E o dado tem uma implicação direta: quem controla o que a maioria vê também decide quem a maioria vai odiar.


A realidade que você percebe não é o mundo. É o recorte que alguém selecionou para você ver. Quem escolhe o escândalo tem interesse no resultado. É uma decisão de poder.


Pense em como você formou sua opinião sobre algum tema nos últimos anos. Você pesquisou? Ou você ouviu repetidamente até que parecesse óbvio? A maioria das opiniões que chamamos de nossas foram, na prática, instaladas por repetição.


A pergunta mais útil não é "isso é verdade?". É "por que isso está aparecendo agora?". A resposta — quase sempre — revela mais do que a notícia em si.


Em 1972, os pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw publicaram o estudo fundador da Teoria do Agendamento, a partir de uma eleição presidencial americana em Chapel Hill. A tese é direta: a mídia pode não conseguir dizer às pessoas como pensar.

Mas é brutalmente eficaz em definir sobre o que pensar.


Você não escolhe o que considera urgente. Isso já foi decidido antes de você ligar a TV. Você considera urgente o que foi repetido o suficiente para parecer urgente.


O mecanismo é simples. Um tema é repetido até se tornar impossível de ser ignorado. Outros veículos entram na mesma frequência e cobrem o mesmo fato, da mesma forma. Com o assunto em todo lugar, você jura que chegou a essa conclusão sozinho.


O silêncio funciona da mesma forma. Um tema ignorado pela cobertura não deixa de existir. Deixa de ser percebido. E o que não é percebido não gera indignação — não move voto, não move mercado, não incomoda ninguém.


O que é repetido vira verdade. O que é silenciado vira inexistente.


No Brasil, esse padrão se repete. Denúncias ocupam capas e horários nobres — até que interesses financeiros redefinam a cobertura. As acusações não desaparecem. Mas a cobertura, sim.


A acusação, quando é do interesse da mídia, tem primeira página. A absolvição tem nota de rodapé. Essa assimetria não é falha do sistema. É o sistema funcionando.


O sistema escolhe quem acusar. Também escolhe o que não mostrar.


A busca permanente por escândalo come o espaço de temas que importam de verdade. Família. Educação. Formação de caráter. Não porque sejam irrelevantes. Mas porque não geram o mesmo calor emocional que uma denúncia gera.


Escândalo captura atenção. Atenção vale dinheiro. E quem decide a pauta é o mesmo que negocia com quem paga a conta.


Não é teoria da conspiração. É modelo de negócio. E modelos de negócio têm lógica própria — independente de quem esteja no poder.


Por décadas, esse modelo funcionou sem contestação. As redes sociais e o streaming quebraram parcialmente esse monopólio — qualquer pessoa passou a ter acesso a outras vozes, outras fontes, outras versões. Os números confirmam a ruptura: entre 2020 e 2024, todas as principais emissoras da TV aberta perderam audiência de forma consistente, segundo dados do Kantar IBOPE. Não por acaso, o debate sobre regular, moderar e controlar as plataformas digitais se intensificou exatamente quando elas começaram a desafiar o modelo tradicional. O monopólio da voz não aceita concorrência.


A pergunta certa não é "a mídia é confiável ou não". É mais simples e mais incômoda: quem manipula a sua indignação?


Por que determinado fato te deixa indignado e outro não? Por que você lembra o nome de quem a mídia escolheu destruir, mas talvez nem saiba que ele foi absolvido?


Caráter inclui isso: a disposição de questionar de onde vêm as suas certezas.

Uma população que não questiona a narrativa não precisa ser governada pela força. Já está dominada.


E quem controla a narrativa decide, na prática, o que é ou o que não é escândalo.


Ninguém se liberta de uma prisão que não sabe que existe.


Você tem o direito de decidir isso por si mesmo. Mas só exerce esse direito quem percebe que alguém estava manipulando sua decisão.


| Claudio Apolinario é articulista e analista político.



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