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A arte de gastar o dinheiro dos outros

  • comunicacaoapolina
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

O Brasil cobra imposto de país rico e entrega serviço de país pobre.


Por Claudio Apolinario


Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Em 2024, o brasileiro trabalhou até o dia 28 de maio apenas para pagar impostos. São 149 dias do ano dedicados exclusivamente ao pagamento de tributos federais, estaduais e municipais, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação.


Coloque isso no calendário. Janeiro inteiro foi do governo. Fevereiro inteiro foi do governo. Março, abril e quase todo mês de maio também. Só em 29 de maio o trabalhador brasileiro começou a trabalhar para si mesmo.


Se isso já incomoda, o que vem a seguir é pior.


Entre os 30 países com maior carga tributária do mundo, o Brasil ocupa o último lugar no retorno desse dinheiro à população. Pela 14ª vez consecutiva. O dado vem do Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade, calculado pelo IBPT, que cruza o volume arrecadado em tributos com o Índice de Desenvolvimento Humano de cada país.


Estamos entre os 30 países com maior carga tributária do mundo. Recebemos os piores serviços públicos entre todos eles.


Existe uma lógica perversa nesse número. Não é que o Brasil arrecada pouco — arrecada muito. O problema é o que acontece com o dinheiro depois que ele sai do bolso do trabalhador.


Quem já tentou usar um pronto-socorro público conhece a resposta. Quem já colocou filho em escola estadual ou federal também. A questão não é falta de recurso. É para onde o recurso vai.


Em 1970, o brasileiro trabalhava 76 dias por ano para pagar tributos. Hoje são 149. O tempo dobrou. Os serviços não acompanharam.


Em 2024, o governo geral brasileiro gastou o equivalente a 45,79% do PIB — quase metade de tudo que o país produziu foi para o Estado. Segundo o Tesouro Nacional, o Brasil destina 28,10% do PIB apenas à proteção social e serviços públicos gerais. A média internacional é 18,29%. Ao mesmo tempo, gasta apenas 2,21% do PIB em infraestrutura e desenvolvimento econômico — menos da metade da média mundial de 5,06%. Um Estado que cresce para dentro e encolhe para o cidadão.


E o paradoxo se aprofunda quando se olha para como esse dinheiro é distribuído. A maior fatia da arrecadação brasileira vem de impostos sobre consumo — aqueles embutidos no preço do pão, da gasolina, do remédio. São 83 dos 149 dias de trabalho dedicados apenas a tributos sobre consumo. Isso significa que quem ganha menos paga, proporcionalmente, mais. O sistema penaliza o trabalhador, mas se esconde dizendo que vai cobrar do rico.


Isso não é acidente. É escolha.


E essa escolha tem um mecanismo. Quando o orçamento público é montado longe do contribuinte, sem transparência e sem prestação de contas real, o critério de gasto muda. Não é mais "o que o cidadão precisa?". É "o que mantém quem está no poder?".

São perguntas diferentes — com respostas muito diferentes. A segunda pergunta vence quase sempre.


Como observou John Randolph, político norte-americano do século XIX: "O mais delicioso de todos os privilégios — gastar o dinheiro dos outros." Duzentos anos depois, o Brasil parece ter encontrado nessa frase um manual de gestão.


Isso tem nome: é a arte de gastar o dinheiro dos outros.


Um Estado eficiente arrecada para entregar. Um Estado capturado arrecada para manter regalias. A diferença entre os dois não está no volume do imposto. Está em quem decide para onde ele vai e com qual critério.


No Brasil, essa decisão acontece longe do povo. Acontece em negociações de orçamento que poucos acompanham, em emendas que poucos conhecem, em transferências que poucos questionam. O dinheiro sai de forma compulsória e chega ao

Estado sem que o contribuinte tenha qualquer poder real sobre seu destino.


Quem gasta o próprio dinheiro pensa duas vezes. Quem gasta o dinheiro dos outros tem menos razão para hesitar.


A solução não é gastar melhor o que está sendo mal gasto. É gastar menos — e devolver ao cidadão o direito de decidir o que fazer com o que é seu.


Menos Estado não é ideologia. É matemática. Países que reduziram a participação do governo no PIB e enxugaram o aparato estatal entregaram mais ao cidadão — não menos. A Irlanda tem carga tributária de 20,9% do PIB, menos de dois terços da brasileira, e lidera o ranking de retorno ao cidadão pelo sétimo ano consecutivo. A diferença não está no quanto se arrecada. Está no tamanho do que se consome antes de chegar ao cidadão.


Pela 14ª vez consecutiva, o Brasil fecha o ranking de retorno ao contribuinte entre os países com maior carga tributária. Um Estado que consome quase metade do PIB e ainda entrega os piores serviços entre os maiores arrecadadores do mundo não tem problema de recurso. Tem problema de tamanho. Esse número não é fatalidade. É escolha política reiterada — e só mudará quando o eleitor parar de assinar o cheque em branco.


| Claudio Apolinario é articulista e analista político.



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